Itens de segurança no carro são artigos de luxo no Brasil
Itens de segurança dos carros brasileiros estão 20 anos defasados em comparação com os modelos europeus, estadunidenses e japoneses. Foto: Divulgação

Carros nacionais têm estrutura piorada e menos itens de segurança em relação a similares da Europa e EUA.

 

No trânsito brasileiro morrem cerca de 40 mil pessoas por ano e outros 100 mil saem feridos. Veículos com baixos níveis de segurança têm participação ativa na tragédia automotiva brasileira. 

A começar por cintos de segurança, que se tornaram obrigatórios apenas em 1984. Mesmo assim, a maioria da frota atual do país sequer tem cinto com pré-tensionador (que se ajusta mais firmemente ao corpo em situação de emergência), numa grave redução da proteção passiva para economizar nos custos de produção. O item, que sequer é exigido pela maioria dos nossos motoristas, é vendido como equipamento opcional em alguns modelos. Ou seja, é cobrado a mais. O uso deles, em conjunto com airbags frontais, reduz em até 85% o risco de morte de motorista e passageiro em caso de colisão, segundo testes da NHTSA, a agência de segurança viária dos Estados Unidos.

 

Montadoras só pensam no lucro, e brasileiro não valoriza a segurança

Até recentemente, a presença de airbags e ABS era rara, simplesmente porque isso não era obrigatório. Antes do aperto da legislação, a presença de sistemas de segurança ativa - que agem antes do acidente, para preveni-lo - era marginal nos carros brasileiros. Em 2007, alguns dados compilados por fabricantes no Brasil mostravam que apenas 25% dos veículos tinham airbags frontais, e 16% tinham freios com ABS. Com a obrigação de aumentar a oferta de ambos os equipamentos, em 2012 a estimativa é que 31% da frota foram equipados com airbag frontal duplo, o que significa algo em torno de 11,3 milhões de carros, e 20% com ABS, perto de 7,5 milhões.

Assim como já aconteceu em outras partes do mundo, essa evolução só foi possível porque o governo criou a regulamentação. Sem isso, dificilmente esses dispositivos seriam adotados, por uma razão simples: os carros ficam mais caros, e o consumidor brasileiro nunca foi conscientizado sobre as vantagens de se pagar mais por segurança.

 

Vergonha e desrespeito

O Brasil é o quarto maior mercado do mundo para o setor, com 3,8 milhões de veículos vendidos em 2012. Mesmo abrigando os maiores fabricantes mundiais de veículos, as montadoras fazem vista grossa para a importância da segurança. Testes de impacto realizados nos últimos três anos pelo Latin NCAP (o programa de avaliação de segurança de carros novos para Brasil e América Latina), com alguns dos principais produtos disponíveis no mercado sul-americano, mostraram que os modelos compactos são inseguros e estão cerca de 20 anos defasados em relação aos automóveis feitos na Europa, América do Norte e Japão.

 

Temos solução?

Tendo em vista a alta carga tributária e a limitação de renda dos consumidores para pagar por sistemas mais sofisticados de segurança, parece improvável que as montadoras passem a dar a devida atenção para o assunto. Mas é possível trilhar um caminho no sentido de incentivos à segurança veicular, como redução de impostos, adoção de um programa de renovação de frota (para tirar das ruas os modelo mais velhos e inseguros), a criação de programas governamentais de testes e a elaboração de uma legislação mais exigente. Caso contrário, continuaremos sendo desrespeitados, pagando preços elevados, tanto para o bolso quanto para a saúde.

O atraso brasileiro

O uso de airbags frontais e freios com ABS (sistema antitravamento de rodas) será obrigatório em 100% dos carros vendidos no Brasil só a partir de 2014, algo que já está em vigor há mais de uma década em países da Europa e América do Norte. Atualmente, há pelo menos seis modelos de carros no mercado nacional que não oferecem airbags e ABS nem se o comprador quiser pagar à parte. Os airbags poderiam ser obrigatórios há muito mais tempo, pois isso estava previsto no Código de Trânsito Brasileiro que entrou em vigor em 1997. Sem explicação (e com muitas desconfianças), o artigo foi vetado antes da publicação pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso.

Assim, enquanto na Europa alguns fabricantes falam em “carros a prova de acidentes”, os brasileiros ainda perdem tempo discutindo a viabilidade econômica de se reduzir impostos para carros mais seguros ou obrigar fabricantes a construir veículos com maior número de equipamentos de segurança ativa.

Os impostos mais altos do mundo

 

No Brasil os impostos sobre os carros de passeio são os mais altos do mundo - em torno de 30% para modelos nacionais e quase 60% para alguns importados. 

Além disso, os fabricantes precisam de grandes margens para poder enviar lucros às suas matrizes. Neste cenário, os obstáculos econômicos dificultam o investimento em tecnologias de segurança.

 

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