Alma: realidade ou ficção religiosa

Por Douglas Meneghatti

Muitas são as especulações e as crenças acerca da alma, no senso comum expressões como “alma penada” e “alma possuída” revelam a multiplicidade de interpretações e o pouco conhecimento a respeito do assunto. Para a tradição cristã a alma humana é criada do nada (ex nihilo) por Deus e forma uma unidade consubstancial com o corpo.


Quanto ao seu significado etimológico, alma, do latim: “anima”, significa princípio vital, ou seja, todo ser vivo possui alma e, por isso, é animado, ao passo que todo ser sem vida não possui alma, ou, é inanimado.

 

Conforme a antiga classificação que se ostenta desde Aristóteles, são três os tipos de alma: vegetativa correspondente aos vegetais e que tem por função a nutrição e a reprodução; sensitiva aos animais, que também possuem as funções de locomoção e sensibilidade, e racional aos seres humanos, dotados de consciência reflexiva e pensamento crítico. Através dessa breve exposição, evidencia-se que a alma não é algo tão misterioso, muito embora suas implicações sejam estritamente delicadas e dignas de análises mais profundas. 

 

O que dificulta a compreensão do assunto é a invisibilidade da alma com relação ao corpo; contudo, convém evidenciar que suas manifestações são claras e visíveis, e aqui recordamos algumas faculdades do homem, como linguagem e reflexão, além de salientar que a memória permanece uma incógnita para o mundo científico. Logo, deve-se considerar que alma e corpo formam um sincretismo perfeito, ou seja, sem alma não há vida, e sem corpo não há ação/movimento da alma. 

 

Para Santo Agostinho, as faculdades da percepção, da vontade e da memória são partes da natureza imaterial/espiritual da alma humana, tais faculdades sintetizam a formação do conhecimento que, de forma geral, não é algo adquirido de forma física ou mecânica, mas pela ação de algo puramente imaterial, isto é, a alma, enquanto agente das sensações, ativa a faculdade perceptiva mediante um fluído corpóreo, quando qualquer sentido é ativado, a alma age enquanto força vital que põe em ato os estímulos corpóreos.

 

Embora seja uma posição antiga e relativamente simples frente às grandes descobertas da neurociência moderna, a contribuição de Agostinho é notável, na medida em que a alma é uma “força” que impulsiona e, portanto, o princípio de movimento do corpo. 

 

Alguns equívocos são cometidos quando falamos de tais assuntos, por exemplo, quando uma pessoa é boa costumamos dizer que ela tem uma “alma grande”, o que não se justifica, a saber, que a alma é imaterial, isto é, não dispõe de “tamanho”, caso contrário, um elefante teria uma “baita” alma, enquanto uma criança apenas uma “almazinha”. 

 

Assim, o impulso vital presente em um adulto é o mesmo presente numa criança e o que possibilita que uma pessoa adulta seja capaz de levantar maior peso que uma criança, não é o desenvolvimento da alma, mas sua massa correspondente; enquanto impulso, ambas possuem as mesmas proporções. No que tange ao aspecto moral podemos falar metaforicamente que a alma avança/cresce moralmente através da prática das boas ações, mas somente moralmente, nunca fisicamente.

 

Agostinho ainda sustenta que a mutabilidade da alma no aspecto moral se deve a interação entre o estado físico e o psíquico, acarretando a alegria, a tristeza, o prazer, a dor, etc. Porém, independentemente dessa mutabilidade, a alma não pode perder sua forma, isto é, os acidentes/atributos podem variar, mas a essência permanece sempre a mesma.

 

Falamos sobre a alma e sua relação com o corpo, concluindo que a mesma é uma força invisível e coextensiva ao corpo, pois, embora o corpo possua os membros necessários para que aconteça o movimento, é ela quem o impulsiona, obviamente, sem entrar em detalhes e sem uma análise minuciosa dos problemas que emergem da discussão, como por exemplo, a imortalidade da alma ou a mortalidade da mesma. Por ora, encerramos a análise e convocamos você a pensar um pouco mais a respeito, afinal, refletir sobre a alma é se debruçar com a própria vida. Deixo de lambuja uma incitante frase do antigo filósofo Anaxágoras: “Nada vem do nada nem vai para o nada, mas tudo está no ser desde sempre e para sempre, mesmo a qualidade mais insignificante”.

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