Conheça a professora do Paraná que mantém um celeiro de pesquisadoras no Interior

A agente educacional Dionéia Schauren, de Toledo, é uma das dez finalistas do Prêmio Professor Destaque da Febrace (Feira Brasileira de Ciências e Engenharia) 2022, que começa na próxima semana.

Única representante do Sul do País e uma das quatro mulheres finalistas, Dionéia é coordenadora do Clube de Ciências do Colégio Estadual Jardim Porto Alegre, que se tornou um verdadeiro polo de pesquisadores juniores com destaque em congressos e feiras no Brasil e no mundo.

Em um cenário ainda dominado por homens – segundo dados da Unesco, menos de 30% dos pesquisadores do mundo são mulheres – a laboratorista ajudou a construir um clube onde a proporção de mulheres é praticamente inversa ou até superior em determinados momentos.

“A grande maioria são meninas. Por incrível que pareça, as mulheres dominam o laboratório. Elas metem a mão na massa, pintam muro, sobem e descascam árvores, fazem tudo de igual para igual. Não tem diferenciação de tratamento. E nunca ouvi um ‘ah, não vou fazer isso porque vou me sujar’”, relata Dionéia, que orienta diversos trabalhos todos os anos.

O resultado do trabalho é visto corriqueiramente, com pesquisas participando de inúmeros eventos nacionais e internacionais. Na própria Febrace 2022 (com projetos de redes privadas e públicas de todo o País), 10 dos 497 trabalhos classificados são da rede estadual do Paraná, sendo cinco do CE Jardim Porto Alegre – quatro deles de meninas – e todos orientados por Dionéia, reconhecida pela orientação dos estudantes.

Criado em 2014 como local para realizar atividades práticas de Física, Química e Biologia no contraturno, o Clube de Ciências se transformou logo no ano seguinte em um espaço para projetos de iniciação científica. “O interesse foi grande e no fim daquele ano inicial lembro de uma aluna que falou pra mim: quero ser cientista igual a você. O que eu faço pra ser também?”, diz a educadora, formada em Ciências Biológicas, com mestrado em Agronomia e Ciências Ambientais.

O recado fez o colégio rever o projeto original, pois ele não havia sido feito para “criar cientistas”, uma vez que eram utilizados roteiros prontos. “Mudamos a partir da vontade dos estudantes de ser pesquisadores. Então, o foco passou a ser o ensino para a pesquisa bibliográfica, organização do plano de pesquisa, com as hipóteses, os objetivos, além do suporte na parte prática do projeto, quando ele efetivamente é feito, adequando à realidade do laboratório e seus recursos”, conta.

Desde então, dezenas de projetos já foram desenvolvidos e reconhecidos, com participações em eventos de quase todos os estados brasileiros e nacionais, como a própria Febrace, Respostas para o Amanhã, além das maiores feiras e programas escolares do gênero no mundo, como a Genius Olympiad, Renegeron ISEF (Feira Internacional de Ciências e Engenharia), Expo-Sciences Asia, London International Youth Science Forum, Programa Jovens Embaixadores, entre outros de destaque.

SER CIENTISTA

Além de seguir metodologias e fazer registros de todos os processos, Dionéia cita um fator muito importante que faz toda a diferença para os resultados alcançados. “Ser cientista é muito mais do que vir para a escola fazer a prática. É se dedicar, ter carinho e não ter data e hora marcada pra fazer as coisas. Tem que entender que no meio do feriado as plantas vão precisar de água, tem medições necessárias e não importa se chover, cair a luz, ele vai vir fazer a sua parte”, diz.

“Temos um diário de bordo com os alunos com gorro de Papai Noel, porque vieram fazer a medição de fungo no dia do Natal, porque o fungo não parou de crescer nesse dia”, completa a laboratorista sobre a relação de paixão e dedicação extra imprescindíveis.

MULHERES NA CIÊNCIA

Com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Febrace lançou no último mês o programa “Mentes criativas, soluções inovadoras”. Uma das duas séries de entrevistas é “Mulheres na Ciência”, com relatos de meninas e professoras que trilharam carreiras de sucesso impulsionadas pela Ciência.

Para a coordenadora-geral da Febrace, Roseli de Deus Lopes, “reduzir a diferença de gênero na Ciência é uma tarefa que cabe a toda a sociedade”. Segundo ela, ainda é muito comum que as mulheres sejam desincentivadas. “Acreditamos que exemplos de superação sirvam para encorajar outras meninas.” Cinco dos oito episódios já foram disponibilizados, sendo um deles com Dionéia Schauren.

MULHERES NA REDE

Dionéia é uma das mais de 60 mil mulheres que fazem a Educação acontecer no Paraná – predominantes em todas as áreas dentro da rede estadual de ensino. Dos mais de 80 mil funcionários diretos da Seed-PR (Secretaria de Estado da Educação e do Esporte), 76% são mulheres, entre professoras, funcionárias de escolas, dos Núcleos Regionais de Educação e da própria Seed-PR. Em nenhum desses diferentes ambientes o percentual feminino é inferior a 73%.

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